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sexta-feira, 4 de maio de 2012

O leão

  
“Tia Deise, o tio Isaías trouxe um leão!” Deise abre os olhos, que dormiam mais ou menos fechados diante da tevê ligada.
“Leão, Paulinha? Que história é essa?!”
“Um leão de verdade!”
Deise senta-se na cama: “Que horas é isso, hein?” pergunta-se, a testa apoiada na mão direita; olha o despertador no bidê: “Passa das onze” diz consigo mesma, adormecera vendo a minissérie, e pensa que Isaías já saiu para o plantão na delegacia.
“Posso ver o leão agora, tia?”
“Que Leão, Paulinha?”
“Tá no armazém, com o tio!”
Deise levanta-se, ainda meio sonolenta retira do guarda-roupa uma calça de brim e uma regata, e dispõe as roupas em cima da cama.
“E o quê que a senhora foi fazer no armazém a essa hora?”
“Pegar minha boneca, que esqueci no depósito. Mas o tio nem me deixou entrar, disse que tinha um leão com ele! É pra dar dinheiro?”
“Tu viu o tal do bicho?” Deise diz, vestindo a calça.
“O tio disse que era perigoso e mandou vir me deitar. Eu vim, só que não consigo dormir; ah, tia, quero ver o leão!”
Deise veste a regata e diz: “Vamos ver esse leão!”.
“Êêê! Tu não acha que vai dar dinheiro? Eu acho!”
“Dá aqui a mão” Deise agarra a mão da sobrinha antes de sair: “Tô louca pra ver esse leão!”.
 “Eu também, tia. Vou contar pra minha profe, na escola, que tio Isaías tem um leão em casa.”
As duas caminham rente às paredes do balneário; nenhum ruído na rua, fora os sapos do riachinho.
“Ela não vai acreditar, Paula.”
 “Daí eu digo então por que a senhora não vai lá no armazém do meu tio?
O armazém na esquina, Deise vê, e também a luz solitária na basculante entreaberta se aproximando.
“Posso chamar ele de Simba, que nem o Rei Leão?”
“Pode, Paula, pode chamar de Simba” Deise diz, riscando o indicador nas paredes frias, ouvindo os rugidos cada vez mais altos.